Em uma proposta de atividade da minha pós-graduação, foi solicitada uma análise considerando nosso módulo “Narrativa da Tradição: Mito e História”, além dos dois parágrafos abaixo retirados do livro O Mundo da Escrita.
“Alexandre da Macedônia é chamado de Grande porque conseguiu unificar as orgulhosas cidades-Estados gregas, conquistar todos os reinos entre a Grécia e o Egito, derrotar o poderoso exército persa e criar um império que se estendeu até a Índia – em menos de treze anos. Pergunta-se desde então como um governante de um reino grego menor foi capaz de realizar essa façanha. Mas sempre houve uma segunda pergunta, mais atraente para mim: antes de mais nada, por que Alexandre quis conquistar a Ásia?
Ao pensar sobre essa questão, acabei por me concentrar em três objetos que Alexandre levava consigo em suas campanhas militares e que punha abaixo de seu travesseiro todas as noites, três objetos que resumiam o modo como ele via sua campanha. O primeiro era um punhal. Ao lado dessa arma, Alexandre guardava uma caixa. E dentro da caixa estava o mais precioso dos três objetos: uma cópia de seu texto favorito, A Ilíada.”
Compartilho aqui o resultado deste trabalho.
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As histórias moldam nosso futuro. Feitos heroicos podem impactar profundamente, especialmente quando servem de inspiração.
Em uma análise geral, podemos dizer que as histórias moldam nosso futuro. Pessoas com feitos heroicos podem impactar profundamente, principalmente se as temos como fonte de inspiração. Muitas histórias contadas acabam se tornando mitos, seja pela forma como são narradas ou pela grandiosidade de sua essência. Sabemos, porém, que, muitas vezes, os mitos fazem parte de um processo narrativo para, diversas vezes, explicar o que talvez não tenha uma explicação, como a origem do mundo ou dos heróis.
Por outro lado, há histórias que são utilizadas para transmitir o conhecimento de uma cultura ou simplesmente relatar acontecimentos do passado. Tendo esse ponto em mente, podemos observar algo muito interessante relacionado ao poema A Ilíada.
Antes de sua transcrição por Homero, A Ilíada era transmitida oralmente. No poema, há a retratação da ira de Aquiles durante a Guerra de Troia. Ele é descrito como quase invulnerável devido ao mergulho no rio Estige e por sua ligação com os deuses, o que adiciona um aspecto fantástico à narrativa. Assim, constrói-se a imagem de um Aquiles heroico que, muito tempo depois, inspiraria Alexandre, o Grande.
Alexandre guardava três objetos que resumiam sua visão de mundo: um punhal, uma caixa e, dentro dela, seu bem mais precioso uma cópia de seu texto favorito, A Ilíada. Em muitos de seus feitos, Alexandre deixou claras as influências da obra, seja nos momentos de motivação de seu exército, seja em suas estratégias de expansão territorial. Ao longo de sua jornada para construir seu império, mantinha sempre consigo sua cópia de A Ilíada, quase como um livro de cabeceira.
Dessa forma, podemos dizer que A Ilíada não foi apenas uma história para Alexandre; foi um modelo de vida. Ele moldou sua identidade em torno dos valores homéricos de coragem, glória e destino. Sua ambição de superar Aquiles o levou a conquistar um dos maiores impérios da história, garantindo que, assim como os heróis da epopeia, seu nome jamais fosse esquecido.
O Mito como Fonte de Inspiração
A história de Alexandre, o Grande, não é apenas um relato de conquistas, mas também um exemplo de como os mitos influenciam líderes e suas ambições. O parágrafo analisado levanta uma questão fundamental: por que Alexandre quis conquistar a Ásia? A resposta passa pela forma como a história e o mito moldam a identidade de um líder. Desde a juventude, Alexandre foi educado por Aristóteles, que lhe apresentou não apenas a filosofia e a ciência, mas também as epopeias homéricas. Ele cresceu acreditando que sua missão era grandiosa e que sua jornada estava destinada a ser comparada aos feitos heroicos da tradição grega.
Além disso, a cultura grega possuía uma forte tradição de expansão e dominação de outros povos. A narrativa heroica, presente tanto em mitos quanto em relatos históricos, reforçava a ideia de que grandes líderes deveriam buscar desafios imensos e conquistar terras para deixar sua marca no mundo. Assim, Alexandre se via como o herdeiro dessa tradição e alguém que deveria levar a cultura grega para além das fronteiras de sua terra natal.
A Sobreposição entre Mito e História
A trajetória de Alexandre demonstra como história e mito frequentemente se misturam. Se, por um lado, ele foi um líder real que realizou feitos concretos, por outro, sua figura foi envolta em uma aura mítica desde sua própria época. Algumas histórias indicam que sua mãe, Olímpia, acreditava que ele era filho de Zeus, e sua ascensão e conquistas foram constantemente comparadas aos feitos de heróis lendários. Esse fenômeno reforça a ideia de que a narrativa tradicional não apenas registra o passado, mas também influencia a maneira como ele é interpretado e recontado ao longo do tempo.
Além disso, sua influência não se limitou ao período em que viveu. Maomé II, o conquistador de Constantinopla, e o Império Britânico também se inspiraram em seu legado. Dessa forma, Alexandre não apenas seguiu o modelo heroico dos mitos, mas também se tornou um mito por si só.
Conclusão
Historicamente, há diversos outros nomes que possivelmente encontraram inspiração em histórias e mitos. Outras obras, como A República, de Platão, os antigos mitos romanos ou até mesmo os textos bíblicos, também exerceram influência sobre grandes figuras da história. Isso nos mostra como as histórias contadas sejam mitos, contos de fadas ou simples relatos de acontecimentos reais podem, sim, construir impérios ou destruir nações. Fazendo um contraponto entre A Ilíada e Alexandre, podemos dizer que o poema nos traz o mito, enquanto Alexandre nos traz a história. Contudo, muitos mitos surgiram em torno do próprio Alexandre, como, por exemplo, a crença de que ele seria filho de Zeus.
Isso nos leva a um ponto importante: muitas vezes, história e mito se misturam. E, uma vez que uma história inspira alguém a construir sua própria jornada, essa nova história pode, por sua vez, inspirar outra pessoa, formando um ciclo no qual o presente se inspira no passado para criar algo para o futuro.
Alexandre se inspirou em Aquiles e, por sua grandiosidade, chegou ao ponto de inspirar outros. Maomé II, o Conquistador de Constantinopla, se via como sucessor espiritual de Alexandre. O imperador macedônio também influenciou o Império Britânico; um exemplo disso é a expansão britânica na Índia, onde se dizia que Alexandre era seu predecessor.
Assim, podemos dizer que toda história tem o potencial de inspirar e que novas histórias podem superar suas inspirações. Somos guiados pelo desejo de sermos maiores que aqueles que vieram antes de nós. Todos queremos deixar um legado, uma história sobre nossos feitos, sejam eles heroicos ou não. Não podemos prever se nossa história se tornará um mito, mas podemos afirmar que toda história bem contada tem o poder de influenciar gerações, mudar pensamentos e transformar vidas.
Alexandre queria ser maior que sua inspiração e enfrentou desafios tão grandiosos quanto os de Aquiles. Isso o tornou tão notável quanto ou até mais que o herói grego. Porém, se Alexandre inspirou alguém, esse alguém também foi, indiretamente, inspirado por Aquiles. Afinal, Alexandre moldou sua trajetória com base na figura do guerreiro grego, e cada uma de suas conquistas carregava um traço dessa influência.
A análise da trajetória de Alexandre, o Grande, mostra como mito e história são elementos indissociáveis na construção da identidade de grandes figuras históricas. Seu fascínio por A Ilíada, sua busca por glória e o impacto que teve em gerações futuras revelam que as histórias que contamos sejam elas fictícias ou reais moldam o mundo e aqueles que o governam. Assim, sua jornada não foi apenas uma campanha militar, mas também uma prova do poder que as narrativas exercem sobre a humanidade.